terça-feira, 13 de março de 2012

MEMORIAL DAS ALDRAVAS LUDOVICENCES - os batentes do Tempo






“São Luís guarda nas portas senhoriais de seus solares e sobrados esse outro patrimônio metonímico, quase invisível, quase em extinção: a sagrada mítica das argolas, tranquetas e aldravas que guardam portas de um tempo outro, que nos invoca para além da mera composição decorativa”, escrevi na edição anterior, para mostrar que as poucas aldravas esquecidas que ainda incrustam algumas de nossas portas são, verdade, guardiãs das portas de um tempo outro: elas estão na soleira de um tempo mítico de nossa cidade, na soleira da casa senhorial do Maranhão, que completa 400 anos.

Esses batedores de ferro, essas ferragens em forma de mãos, argolas, faunos, leões, carrancas, pingentes e tranquetas transformam, simbolicamente, esses casarões ora em naus que navegam tempo adentro, carregando consigo suas famílias e seus espectros; ora em bois argolados pelo nariz, forcejando para se libertar do julgo, que insiste em rondar os séculos, e muitas vezes os faz sucumbir até à ruína.

Ou seja: as aldravas não estão apenas incrustadas nas portas que medeiam dois tempos, o antigo, mítico-estético, e o nosso, mais prático-racional-utilitário. Elas revelam ainda dois modos de vivência da sociedade colono-imperial: um mundo agrário, de coronéis, fazendeiros e vaqueiros, e um mundo marítimo, dos quais os portugueses são herdeiros – mundo de assombrações e demônios marinhos aos quais era preciso expurgar. Esses dois mundos e seus produtos se encontram mediados nos comércios dos sobrados, mas suas portas encimadas pelas ferragens simbólicas é que desvelam nossas vocações mais arcaicas.

Evidentemente esse memorial aberto pelas aldravas é também marcado por relações de poder: as mãos são sempre vestidas com mangas nobres e ostentam anéis nos dedos; as peças também não se encontram em casebres, mas são também marcas de poder e gosto. Algumas dessas aldravas são peças primorosas, verdadeiras obras de arte cujo dono se orgulharia em ostentar em sua porta principal.

Nesta São Luís, ficamos pasmos ao ver tantos casarões em destroços, às vezes quarteirões inteiros; um sem-número deles com placas de “vende-se” e outros tantos com placa de “aluga-se”. Há um choque de tempos e circunstâncias adversas em curso. Por diversas razões, dá-se um silencioso abandono dessa cidade antiga, desse “arcaísmo” em prol do “novo”, em prol deste presente de promessas. Mas precisamos urgentemente cuidar do conjunto da obra, dessa casa materna que também nos dá sentido, e incluir esses mimos de ferro e bronze, essas minúsculas guardiãs das portas do tempo, em um novo olhar. Memória, antes que in memoriam. Elas são belas!

Aldravas – et. árabe: ad-dabbâ 'trinco, lingüeta, ferrolho (de ferro); aldraba ou aldrava. (1712) Peça móvel de metal, em forma de argola, mão etc., que se prende às portas e serve para bater, chamando a atenção de quem se encontra do lado de dentro; batedor, batente (Fonte: Dic. Houaiss).